::Hedi

Um aniversário inesquecível

“Uma vez eu simplesmente desenvolvi uma ojeriza (comentário ortográfico, Hojerizah era a banda!) por uma menininha de 1 ano e meio que era minha vizinha de porta. Eu morava em uma casa de vila, eram só duas casas. A mãe dela era mais nova que eu e era um amor. Não enchia o saco, estava sempre fofa rindo, simpatia gratuita. Não era o mesmo que eu sentia pela menininha. Lembro o nome da mãe, mas não me lembro do nome da garotinha. Só lembro o apelido: Hedi (pronuncia-se “édi”, de hedionda). Óbvio que eu não a chamava assim, era apenas um apelido carinhoso.

Acho que passei a odiar secretamente a Hedi porque não fui com a cara dela. Além do mais, ela me acordava todos os dias religiosamente com o programa dos Teletubbies. Nesse tempo eu era tradutora freelancer, primeiro período em que fui freelancer, horário flexível, vida bagunçada, tempo e dinheiro sobrando, Internet começando a acontecer. Eu passava as madrugadas conectada em acesso discado, frequentando chats, conhecendo a Internet, essa maravilha. Às 5 da manhã, quase sempre eu ia dormir, pra ser acordada com Tinky Winky, Gypsi, Lala e Pooooooo falando “Ooooooooooooooooooooooooooiiiiiiiiiiiiii”. Já acordava louca de ódio até que passei a assistir Teletubbies e acabei gostando. Aprendi muito sobre as cores, os formatos e os bichos. Nunca reclamei que o som alto da televisão me incomodava, deixa pra lá, ela era um amor.

Até que um dia ela me convidou pro aniversário de 2 anos da Hedi que aconteceria à noite. Bem, fui ao shopping e pensei: “o que eu vou dar pra essa criança hedionda que me acorda com Teletubbies todos os dias??”. Não estava com a menor disposição de dar presente, acabei comprando um balão de gás muito colorido, com formatinho e tudo. Não era um presente ingênuo, era um presente maligno com requintes de premeditação. Aconteceu até melhor do que eu previa. Acompanhe a reconstituição dos fatos.

Cheguei na festa/minha casa e foi um sucesso. O balão chamou a atenção e eu vi os olhinhos de Hedi brilharem de fascinação. Só que, pra começar, deu merda porque eram mil crianças e só a aniversariante ganhou. Ficou Hedi circulando com aquilo, causando choro nos convidadinhos, e o pai achou por bem guardar o balão dentro do guarda-roupa. Aí quem começou a chorar foi ela, a criança hedionda. Daniela 1 x 0 Hedi.

Veio a mãe e liberou o balão só um pouquinho, as outras crianças já estavam distraídas, o que que tem?? Daniela 1 x 1 Hedi.

O que que tinha era o ventilador de teto. Veio o pai e confiscou o balão de novo, porque podia bater no ventilador de teto e ia estragar. Hedi se esgoelou, o caos, começou a dar briga entre a mãe e o pai por causa disso. Daniela 2 x 1 Hedi.

Ninguém cogitava desligar o ventilador porque estava muito calor. “Deixa, daqui a pouco ela esquece.”

Esqueceu nada, ficou morrinhando, enchendo o saco, chorando cheia de meleca e fazendo jus ao meu preconceito. Como são grandes as bocas das crianças que berram inconformadas. Parecem túneis sem fim: elas berram, o som vai até onde consegue e volta num eco de horror para fora, direto pros ouvidos de quem ainda não conseguiu sair de perto. Foi muito difícil disfarçar a satisfação de ter causado alvoroço na festa e me vingado da minha algoz. Eu ficava procurando confirmação nos outros convidados. Ali estava uma criança chata, hedionda. Né? A coitada acabou tomando um tapa do pai. Chorou mais ainda, deu merda. Daniela 3 x 1 Hedi.

Nisso apareceu uma tia, madrinha, sei lá, e falou que era pra dar o balão pra menina, tadinha, era o aniversário dela, “deeeeixa!”. Nem deu tempo de atualizar o placar, porque o balão, assim que foi liberto, foi direto pro ventilador de teto, virou picadinho: “tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-AAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaiiiiii, o balãããão, tá veeeendo??, desliga, desliga, desliga POOOOORRAAA, alguém pega a menina no colo que ela tá chorando!!!”.

Daniela 99 x 1 Hedi

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Uma resposta para “::Hedi”

  1. di disse:

    hahahahaha – adorei 😀 tb já tive uma hedi, mas do sexo masculino

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