::Direto

Meu shampoo preferido está acabando, coloquei de cabeça pra baixo. Se, por algum motivo, isso não for uma prática aceita na sociedade e alguém torcer o nariz, alego sincretismo e digo que é simpatia para reduzir volume.

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Sou versada em diálogos mentais frenéticos. Não sei como é viver diferente, ouço vozes o tempo todo. Há uns meses, a mais frequente é um espírito de porco estridente, um poço de rancor, lembra de tudo, joga tudo na minha cara, me xinga. A minha abordagem com ela, a voz, sempre foi dar razão: ouço, acato, entendo o contexto e concordo. Realmente, que pessoa horrível, fez curso pra ser idiota? Tá de parabéns! Aí entra a tal inteligência de que tanto falam. Por pura monotonia da repetição e como essa voz tem me incomodado todo dia, está começando a ficar inconveniente. Hoje foi a primeira vez na vida que me fiz de surda quando ela falou. Ok, sou idiota, não posso mudar por enquanto, você tem alguma sugestão? Então me deixa fazer meu café que o dia está cheio. A voz continua falando, mas tá chata e deixei falar sozinha, já virou white noise.

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Não acredito em reencarnação. [pausa para você se recuperar do choque, afinal, dogma dogmíssimo, indiscutível, como se atreve?] Pelo simples fato de que não acredito em encarnação. A ideia de um espírito surgir desconectado daquele corpo, daquela família, daquele contexto histórico. Na minha opinião, somos uma massa de bolo que é amalgamada junta na mesa da boleira. Antes de entrar no forno, somos só ingredientes. Uma pitada de DNA biológico, açúcar porque somos puro amor e fofos, farinha pra fazer a mágica da estrutura, leite pra dar liga, ovos, dois de lá, um de cá. Uns crescem lindos, outros solam, que pena. Não há um bolo igual ao outro, nem nenhum bolo vira ingrediente de novo. Saiu do forno, é alimento ou pretexto, faz companhia pro café ou pro suco, cumpre seu papel e vira estatística nos sucos gástricos implacáveis que digerem tudo. Aí segue o seu rumo, caminha ladeira abaixo e vira outro tipo bolo, com outra utilidade. Você pode discordar, não vou ficar chateada. Esta é uma opinião e não um argumento irrefutável de um fato da vida.

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Dou importância demais ao que o outro fala, pensa, sente sobre mim. E isso não precisa ser assim tão sério. Pelo menos não nesta vida. Não mais.

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Quando eu tinha uns 7 anos, minha mãe prendia meu apontador com uma cordinha na bolsa, pra eu não perder. Eu era a única criança da sala com um apontador retrátil imperdível. Era o primeiro ano da minha irmã na escola e minha mãe já tinha cansado de comprar centenas de apontadores, porque ela perdia todos. Ou quebrava. Ou ficava cego porque ela adorava apontar e apontava os lápis até sumirem no ostracismo, essas cebolas descascáveis mágicas, que maravilha desaparecer com um lápis assim. Pois a medida extrema foi não só conectar o apontador no material móvel para toda a eternidade, mas também um apontador de metal pesadão. Eu não era descuidada com o material, mas, pelo sim pelo não, ela chumbou os apontadores das duas, o que é que tem? Tem que, até entendo os motivos, mas era uma vergonha suprema. Parecia um idoso dos anos 30 aprisionado num corpo de criança. Pra ver as horas e apontar, sacávamos os nossos objetos com uma cordinha de 1 metro, que era pra não ter erro. Se fosse hoje, eu enfrentaria o problema de outra maneira. Ou colocaria um potinho bem discreto no fundo da bolsa, para apontar sem testemunhas. Ou usaria a tesoura e daria um chilique encarando minha mãe e provando por A+B que eu nunca tinha perdido material. Estamos falando de um período muito anterior aos apontadores com cases para as lasquinhas e alguns anos antes de deixarem usar lapiseira. Tudo muito precário, saudades.

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Trabalho em casa e não ando vendo muitos seres humanos diariamente. Nas raras interações, estou completamente fora de forma, perdi o traquejo. Aquela cola social de agradecer, passar, cumprimentar, pedir é composta por palavras, acenos, linguagem corporal. Agora eu entremeio tudo errado. Invariavelmente em vez de agradecer, falo por favor. Um dia desses pedi desculpas ao mesmo ser humano 5 vezes. E não havia razão pra isso. Parece que a boca está desconectada da cabeça, não sei mais interagir. Levo de casa as palavras numa sacola, aí vejo um humano, tropeço, deixo cair tudo e, na hora de catar, é um grande arregalamento. Eu agora arregalo as pessoas. Preciso me misturar.

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Uma resposta para “::Direto”

  1. Ju Vilela disse:

    Esses dias fiquei algumas horas sentada numa livraria aguardando horário da fisioterapia. Uma livreira me deu boa tarde e perguntou se poderia me ajudar, eu fiz que não, MAS eu tive que voltar e dizer – Boa tarde, me desculpe, na minha cabeça eu tinha respondido você. Sim, eu realmente achei que tinha falado boa tarde 🙁
    Beijo

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