::Jujuba de Jesus

Uma metáfora freudiana da interdição do prazer

Já é a terceira pessoa que me diz em poucas horas:

— Saudade de você.

Ao que respondo:

— Eu também.

Não estou mais aqui há tempos. Cadê? Onde estou? Da última vez que me vi, o que estava fazendo, o que vestia? Não é uma questão de estar infeliz, triste. Só não estou aqui. Nem aí. Talvez esteja infeliz e triste. Talvez não. Quando voltar, talvez saberei.

E se não voltar?

Aquela ilusão de que as coisas vão melhorar, que tudo vai dar certo, o seu clichê preferido de que quem espera sempre alcança ou que os fortes serão recompensados no final. Mentira, balela, bullshitagem, clichê rebosteio de quinta. Não, não vai ficar tudo bem. Como você pode ter tanta certeza? Porque os filmes dizem? Claro, os filmes sabem tudo. Mande os filmes me procurarem que eu tenho umas verdades pra falar pra eles. Sem legenda nem dublagem, que não tô pra brincadeira.

Essa herança/maldição cristã infecciona tudo na nossa cultura. Toda a nossa formação é baseada no conceito de céu, aquela premiação futura, convenientemente disponível apenas depois que se morre. Lá na frente, você terá a compensação justa por tudo de ruim que estiver passando. Quanto pior a sua vida, maior será a recompensa. Ambicione ser santo, com uma história bem triste, porque o sacrifício é imenso, proporcional ao júbilo posterior.

Isso está em toda parte. Você come sobremesa? Podem provar por a + b que o açúcar depois da refeição salgada é a melhor maneira de se alimentar. O que de fato nós praticamos e internalizamos é que algo doce, agradável à ponta da língua, nos será entregue como troféu depois que tivermos comido algo salgado, ruim e percebido em lugares estranhos da língua, deixa eu acabar de comer essa gororoba logo que a sobremesa está me encarando. Sobremesas são a terra prometida do bom comportamento. Sem elas ficam crianças mal comportadas ou adultos que comeram errado, ai ai ai. O desmame mal feito generalizado deu nisso, gerações inteiras incapazes de superar o trauma da adaptação para o salgado, preguiçosas e mal acostumadas. O problema da humanidade é o paladar mal treinado. É o sucesso dos saborizadores de leite, os pacotinhos de açúcar em toda mesa de café, o medo do amargo, do azedo.

Deixar o melhor para o final é o martírio esperançoso de retardar a felicidade ao máximo. Lá na frente você será feliz, agora não. O pacote de jujubas está aí pra quem quiser ver. Todas têm mais ou menos o mesmo gosto, mas elas vêm coloridinhas. Distorções na mecânica de consumo à parte, o comedor médio de jujuba segue este raciocínio:

Amarelas – boas, amarelo é o sol que dá a vida. Dizem que são feitas de laranja. Oba, vou comer um solzinho.

Laranja – que gracinha, deve ser de tangerina. Ou será laranja? Dá mais uma pra eu ver. Olha, essa tem uma ponta de outra cor!

Verde – ninguém merece. Verde lembra brócolis, couve, árvore, alface, tudo o que há de mais detestável na face da terra.

Branca – anis, mas o que que é isso, alguém tira isso daqui, que gosto esquisito. Procura aí o que é anis, gente, pra mandar tirar de tudo. Anis é o coentro do doce. Pode não, tinham que proibir.

Tudo isso é integralmente superado porque, em seguida, depois do calvário, no fim do pacote, deita calmamente a preferida. E ela sempre fica para o final, escolhida com um sorriso, a mais audaciosa, atrevida, desejada e festejada.

~ *Vermelha* ~ – prêmio, louvor, honra e glória suprema. Da cor do coração, do sangue que corre nas veias, a cor do amor, da Moranguinho e da maior parte das bandeiras. Vermelho é a sua paixão, seus lábios, sua vontade de sair saltitando quando algo bom acontece. Pode acabar o mundo, sempre teremos a jujuba vermelha no final. Não sequestre a última jujuba do pacote de ninguém: você estará roubando dela a felicidade.

É um conceito viciado, uma mecânica de retardamento do prazer. Desde que me dei conta disso, fiz vários testes de comer a vermelha primeiro. Fica tudo enviezado, não tentem repetir isso, por favor. Como você se atreve a pegar sua medalha antes de correr a meia maratona? Quem você pensa que é para antecipar a felicidade de comer uma jujubinha vermelhinha do amor sem antes passar pelo sufoco das outras? Não pode, está errado. Tem que sofrer primeiro, tem que sofrer muito para merecer a salvação. Aproveitar antes é um crime, uma descompostura, algo a ser evitado e condenado.

Bem-aventurados os que não estão nada bem agora. Alguém — real ou imaginado — nos garante a todos que há vida em abundância. Mas só depois.

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2 respostas para “::Jujuba de Jesus”

  1. dionete disse:

    excelente. e tão verdadeiro!

  2. Lu disse:

    que texto gostoso!

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