::Andar na linha

Om... Ai!

(Ilustração de Kiseleva Mila)

Um dos grandes equívocos de quem faz terapia é achar que os problemas vão desaparecer. Ou meditar achando que o correto é esvaziar a mente. Não esvaziou, então não meditou. Não é assim que funciona. Com a exceção da terapia cognitivo-comportamental que resolve um drama pontualmente e você fica livre. Passou por um trauma forte? Resolve aquilo, dessensibiliza, toma um banho e acabou. Estou falando da terapia em divã, de longo prazo, outra proposta. Eu uso o processo terapêutico e a meditação pra aumentar a resiliência, aquela capacidade de esticar o elástico sem esgarçar a ponto de te deixar com a calça arriada enquanto atravessa a rua. Os problemas nunca vão desaparecer nem melhorar. Às vezes até pioram, porque tomar consciência de si mesmo dói, exige que você se responsabilize e envolve mudanças de atitude que muitas vezes mudam tudo, você tem até que mudar as cortinas de casa.

Terapia é abrir-se a si mesmo em mil pedaços sem anestesia. É todo dia sentar-se em frente a sua estante de problemas, questões, dificuldades, medos, pavores, hábitos, desejos e vontades, pegar cada um dos itens, olhar com carinho, entender e por fim decidir se volto com ele pra estante ou jogo fora. E, ao voltar com o item pra estante, dá pra arrumar diferente, criar nichos semânticos ou deixar como estava. Eu sei que funcionou quando o resultado do processo é um sorriso orgulhoso ou debochado. Ou um choro catártico, que também sou chegada a uma autopirraça de vez em quando. E depois de tantos anos de autoconhecimento e treino, é natural a pessoa ficar confiante. Eu pelo menos fiquei toda pimpona, achando que tudo estava sob controle, que tudo daria pra resolver, principalmente o que não dava para controlar, toda treinada na impermanência. Já tinha até pegado um suco.

Aí caiu uma bigorna na minha cabeça e não sei resolver, fiquei estatelada, incrédula, cambaleante e achando tudo uma tremenda injustiça. Mesmo com tanta terapia e tantos recursos, mesmo com toda a flexibilidade, esse monstro parece difícil demais. Deve fazer parte do processo de crescimento: os problemas ficam mais cabeludos e as lâminas das soluções mais cegas, tudo menos depilável e sujeito a tufos incômodos surgindo nos piores momentos. Parece uma mudança de curso gigantesca, semelhante a uma manobra de navio, um giro na escotilha emperrada. Não pode ser feito, não vou conseguir. E não conseguir não é uma saída fofa, é um prognóstico ruim, solitário, sombrio, triste, coisa pra mudar de cidade, adotar uma outra identidade e torcer pra que viver disfarçada e na mentira resolva.

Talvez o problema não tenha mesmo solução e, em vez de manobrar o navio, o correto seja deixá-lo em alto mar e alugar uns barquinhos pra ir e voltar todo dia pra terra firme. Será? O consenso é não fazer nada, esperar, observar e acolher, aproveitando a marola. O que fazer quando o correto é não fazer nada? Aterrorizada, resolvi meditar e deixar a mente trabalhar no modo aleatório e achar uma combinação imponderável. Alimentei essa mente constantemente, dei o que ela precisava, vire-se. Se conscientemente não tem solução, confiei e fui dormir. Deu certo, a solução veio em sonho por dois dias seguidos.

É bom não ter pressa, porque não é solução pronta, é apenas um caminho que singelamente pode nem ser o correto. Não é uma coisa só a fazer ou não fazer, é uma perspectiva nova pra um problema que chegou a um ponto decisivo. Coisa que não quero ainda nem abordar na terapia, porque é enorme demais, chato demais e bem mais constrangedor do que eu gostaria. O risco, inclusive, é não chegar a lugar nenhum, andar em círculos e ficar tonta. Saber a causa, não saber a saída.

A parte boa de estar meditada, analisada e chafurdada é que dá até pra experimentar e errar conscientemente pra ver no que dá. Fazer o certo um pouco e também escolher fazer o errado, pra tentar uma nova abordagem, desobedecer os instintos, ser um pouco Costanza talvez.

O problema misterioso é a resposta pra pergunta: por que as pessoas me odeiam tanto? Incluindo você.

 

 

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2 respostas para “::Andar na linha”

  1. Deh disse:

    “Talvez o problema não tenha mesmo solução e, em vez de manobrar o navio, o correto seja deixá-lo em alto mar e alugar uns barquinhos pra ir e voltar todo dia pra terra firme. Será? O consenso é não fazer nada, esperar, observar e acolher, aproveitando a marola.”

    Putamerda, perfeito.

    Ontem ouvi um negócio: “você sempre acha que é algo que você disse. ENTENDA QUE NÃO É. NÃO HÁ NADA ERRADO EM VOCÊ”. ouvi mil vezes.

    Certo, como acredito? Eu adoraria. Adoraria a segurança de poder dizer “o vacilo não foi meu”. e fico pensando em mil maneiras de reverter o que não tem volta e de resolver o que não tem solução. as loucuras que eu faria, só porque não me conformo de a minha bigorna ter caído assim, plaft, desse jeito louco. eu só queria esquecer. não queria trabalhar em terapia, porcaria nenhuma. só queria esquecer. voltar a dezembro do ano passado e pular direto pra hoje.

  2. impublicavel disse:

    Pra começar, é mentira isso de “não é nada que vc disse, não há nada errado em vc”. Eles mentem!
    Não sei se estamos falando do mesmo assunto. Mas também quero esquecer. Pular pra hoje só meditando. O ontem fica desabilitado e o amanhã também.

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