::Arqueologia

Will it float?

Há uns dias descobri a origem da minha raiva. [Que rufem os tambores!] Por que, como, quando, quem, tudo. É um novelo que amarra tudo o que me afeta, todas as reações, o jeito como vivo, as palavras que escolho, o que compro e de qual lado da cama durmo. Amarra e paralisa: agora que descobri, tenho que resolver.

A raiva é uma emoção como outra qualquer e não pretendo deixar de senti-la. Quero as emoções todas intactas, inteiras, passadas e perfumadas dentro do armário e em constante prontidão. Não é bom reprimir emoções e sentimentos. O que precisa mudar é a práxis, a maneira de reagir, responder. Quero entrar em casa mais feliz, estar feliz dentro de casa, voltar a ser eu mesma, depois que a coisa degringolou. E degringolou aqui, antes de eu entrar pra escola, olha que gracinha, quanto colágeno e quanta esperança.

Trabalhar nas atitudes é dinâmico, dá mais propriedade, ocupa o corpo e a mente, descansa o pensamento e a angústia paranoica, tira a pessoa do estupor pós-constatação, o autoflagelo estéril, o faroeste dos culpados, essa mania que a gente tem de ser justiceiro de si mesmo. Descobri de dentro pra fora, agora estou agindo de fora pra dentro e pretendo encontrar alguma coisa interessante no meio do caminho, amalgamar algo totalmente novo. Daqui vai sair um novo jeito de agir, pensar, uma nova pessoa. Pode dar errado também, mas aí fica como está: ninguém liga nem eu telefono, mantemos tudo como está.

Não descobri do jeito fácil, não foi um x da questão bonitinho. Foi tragédia de avião, estou em carne viva, fratura exposta, uma mistura de vergonha, medo e disposição porque acho que ainda dá tempo de consertar. Precisaremos de todas as equipes de resgate, a junta médica e o caricaturista. Vai doer.

A primeira medida foi reconhecer o problema. OK. Neste momento, estou em modo teste pra ver se tem solução. Está tudo muito no início ainda e não vou comemorar, porém, já tive ótimos resultados, 100% de aproveitamento. Fui direto confrontar os gatilhos da raiva, que não tô aqui de brincadeira, e eles estão em toda parte, eu não tinha ideia! O atendimento na minha batata preferida miraculosamente melhorou, Anabela de Malhadas adivinhou o peso de primeira, tive mais sorrisos e sorri mais, tudo fluiu, como se tivessem transplantado as pessoas de um lugar onde elas se importam. O Profeta Gentileza estaria orgulhoso de mim. O sinal agora fecha e abre num ritmo razoável, emagreci, resolvi por telefone coisas que antes seriam impossíveis e já até me ligaram empenhados em me devolver um dinheiro que cobraram a mais na pizzaria.

“Dona Daniela, se a senhora quiser, mando um motoqueiro aí com o dinheiro.”

“Não precisa, vou aí buscar.”

“A senhora tem certeza?”

“Aí ferrou, não tenho certeza de nada.”

Os objetos inanimados também estão diferentes, bem mais animados do que antes. Porque eu mudei. Já não brigo mais com eles. Nem comigo. Nem com ninguém. Também não clico mais por engano na Barra de Tarefas, no FileZilla, que está sempre em status de retardamento, sempre querendo instalar uma atualização de software enervante bem na hora de subir ou baixar um arquivo. Agora o dedo obedece no teclado. Não é nada sobrenatural, nada mágico nem lisérgico, mas bem que está parecendo. Não é possível! Dói, claro, mas gostaria de ter chegado a essas conclusões antes.

A minha raiva é um sentimento ligado à minha luta por sobrevivência, não fiz nada de propósito porque sou intrinsecamente seca e ruim. Agora que estou com dever de casa novo, tenho que fazer tudo sem pressa e com paciência, estou fazendo o deploy usando o banco de dados de produção logo, que a vida funciona sem ensaio. Tudo está exigindo muita vigilância até eu funcionar no modo automático novo sem precisar pensar antes de agir. É uma mudança de grande porte com impacto em tudo.

Evidentemente não vou contar tudo, acabamos de nos conhecer. Você saberá o que quiser na hora certa, especialmente se tiver disposição para ler nas entrelinhas, que é a minha frequência preferida. E se tiver carinho. Respiro por aparelhos e dentro do saco, alternando. Tenha calma comigo daí que terei calma comigo daqui.

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