::O doido e eu

Um dia seremos livres

Há uns dois meses, apareceu um doido na minha rua. Um doido que berra. As crises estão cada vez mais frequentes, os berros mais fortes. O túnel de som traz a dor do doido pra muito perto de mim, é impossível ignorar. Aí hoje eu desci pra ver se via o doido. Levei apenas o cartão do banco, se precisasse sair correndo pra comprar uma água pra ele. Berrando desse jeito, devia estar com sede.

A orientação espacial me levou para o prédio certo, olhei pro alto e nada, não ouvia mais, até que ouvi. O porteiro me contou que também ouvia, contou parte do que sabia da história do doido. Era um morador, não mora sozinho, não é um doido itinerante que aparecia de vez em quando pela rua como eu achava. É um doido impublicável, que aparentemente não está recebendo atendimento, está negligenciado pelos seus e por todos em volta. Senão, não estaria tão mal. E, se é impublicável, me interessa.

É claramente alguém em surto, um doente mental em sofrimento e sem tratamento. A compaixão instantânea dói também e disfarça uma inveja muito grande da liberdade dos doidos. Eles querem gritar e gritam, querem quebrar tudo e quebram, querem xingar e xingam. Ninguém dá nada pro doido fazer porque ele está sem condições de funcionar. Em teoria, ninguém trata mal o doido. Porque, se fizer isso, ele poderá revidar, jogar coisas em cima. A bem da verdade, ele revidará com ou sem motivo. Ele não sabe por que tá jogando, mas você sabe por que está sendo atingido no meio da testa. É uma violência catártica, desobrigada, vai reclamar com o bispo. Nós, os não medicados e doidos controlados, temos a única opção de gritar dentro do travesseiro pra não assustar a vizinhança, deitar chorando em desespero e torcer pra apagar rápido, tomando cuidado pra colocar uma alturinha senão acorda com bolsas de viagem debaixo dos olhos, o rosto o dobro de tamanho, as secreções entupindo as cavidades, a boca seca e a certeza de que nada passou, foi só uma interrupção temporária ao sofrimento. Eles, os doidos de carteirinha, não têm tarefas, são doidos. Nós, os doidos disfarçados, sofremos também pela lucidez, como uma maldição, e temos tanta responsabilidade: trabalhar, hidratar, pagar contas, sair para almoçar, encontrar os outros na rua, rir sem vontade, kkk.

Eu não sei por que desci hoje, não sei se poderia ajudar. Queria mesmo era abraçar o doido, gritar junto com ele, ser por alguns momentos a segunda voz do doido que grita, gritar por ele um pouco. Queria jogar pra fora aos berros a insatisfação do que não consigo mudar, do que não consigo deixar pra lá, exausta das mudanças que tenho que empreender, os esforços impossíveis pra fazer de conta que está tudo normal quando está tudo o oposto disso: tudo está mais pro avesso do absurdo de uma realidade indigesta demais, que vai descer atravessada rasgando tudo e cicatrizando lentamente, se eu tiver sorte de um dia cicatrizar.

A dor do doido é a minha dor. Não consigo ficar indiferente porque somos tão iguais. Queria um remédio pra minha dor e pra dele. Fica um pouco quieto, doido, vamos ficar quietos juntos, esperar o remédio fazer efeito até a química do cérebro começar a achar tudo fácil de atravessar. Vamos ser livres, doido! Vamos fazer de conta que ninguém está nos machucando por ação ou indiferença, por acusação ou negligência, por distância ou descaso. Vamos fazer de conta, nem que seja por um momento, que aquele silêncio não está martelando tão alto. Um dia, quem sabe, tudo isso vai passar, a vida vai nos dar um presente e vamos gritar de alívio.

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