::Controle

Eu amo meu rim

Um dos pesadelos da minha vida é ter que doar um rim. Sabe como é: a pessoa morrendo, a compatibilidade, aquele papo de amor incondicional e pronto, você tem que doar uma parte do seu corpo, porque senão fica chato. Parte do problema é que sou muito apegada às minhas coisas, aos meus órgãos principalmente. Parte é porque teria que ser alguém que eu amasse bastante e que jamais poderia despertar arrependimento. Amo bastante, acho ótimo, mas rim sempre foi um negócio demais pra minha cabeça. A pessoa ia sempre ficar com aquele sorriso idiota, rir forçado das minhas piadas, afinal eu doei um rim e mal sabe ela que foi a contragosto. Imagina um desentendimento com alguém que recebeu meu rim! É o tipo de coisa que não dá pra jogar na cara porque fica mais chato ainda do que recusar. E tem como evitar você se desentender com alguém pro resto da vida, pro amor incondicional funcionar sem nenhum amassadinho? Tem. É só mudar de continente e cortar relações. Lá se foi a pessoa e meu rim junto, mas o amor está mantido pra sempre, que coisa linda que é o amor. Melhor não arriscar.

A outra parte do problema, além da separação de um órgão que muito convenientemente vem dobrado pra jogar o vivente numa saia justa até o fim da vida, é que eu não sei realizar um transplante de rim. Você pode me explicar mil vezes, posso fazer um curso de transplante, um de rim, posso passar na prova, mas não saberia fazer. Não é a minha profissão e não investiria tempo pra aprender a fazer isso. Pra arriscar um órgão vital, é bom dar tudo certo na transferência. E eu não sei fazer isso. O tanto que investiria emocionalmente no desapego do rim e no apego ao receptor, pra depois não dar certo por erro ou incompatibilidade do pós-cirúrgico. Meu rim no lixo, ninguém tá nem aí, bota o doente na fila do transplante de novo. Já pensou? Se eu não puder garantir que meu rim iria funcionar super bem no outro corpo, não ficaria à vontade pra isso. Eu gosto muito do que eu consigo fazer e dificilmente confio que os outros vão realizar tarefas de grande porte que me afetem. Um ravioli você confia que alguém prepare pra você. Se não estiver bom, pede outro prato, come pãozinho do couvert pra não morrer de fome ou vai pra casa e faz um miojo, merda de restaurante, qual a dificuldade de preparar um ravioli? Algumas decisões que afetam a minha vida realmente prefiro eu mesma estar no comando, tenho complexo de Ursulão. Até que chegou o momento em que percebi como isso é impraticável, tive que dar um salto, confiar, me entregar e ter fé.

Controle, fé, rim, relações. Não tenho fé. Tenho uma lua minguante de fé, um Chile de fé. Já viu como a lua minguante é fininha? Viu o mapa do Chile, que magrinho? Pois é, essa é a minha fé. Não é fé em Deus ou algo acima de nós. É fé que as coisas vão melhorar, que vai dar tudo certo no final, que a justiça será feita. É essa fé que não tenho.

Essa noite sonhei que meu pai era o Vladimir Putin. Adorei, foi uma surpresa ótima por vê-lo e porque achei chique ser a filha do dono. Primeira coisa que pedi foi pra ver os mísseis, as ogivas, a sala de controle. Freud, onde estiver, até tem vontade de rir, mas só observa. No sonho, meu pai/Putin falou que seria melhor eu não ir lá agora, pra não chamar a atenção. “Filha, é um lugar muito vigiado, deixa passar uma semana, um mês, dois, aí te levo lá. Enquanto isso, o sorvete daqui é ótimo, vamos lá que eu peço pra eles prepararem um potão pra você.” E ele estava tão lindo, tão feliz, animado com o sorvete do Kremlim, sendo sábio e escolhendo o melhor momento pra eu conhecer os procedimentos de como se manda tudo pro espaço. Ou não.

Lições de confiança, poder interno, saudade, lições do tempo cronos, aquele da hora certa de todas as coisas, que a gente, quando tem o poder na mão talvez decida na hora errada, faz e pronto. Eu tenho pressa de viver e penso extremamente rápido, não sei esperar, a minha hora é sempre agora. E agora não é mais, já nem sei. Ainda bem que tenho esses sorvetes metafóricos porque as transformações estão pesadas e brutais. Tô mudando tanto que daqui a pouco fico igual de novo por pura confusão mental. Preciso me cuidar, me alimentar, deixar filtrar e me preparar pra dar conta das usinas criativas e de fissão nuclear que nem sabia que estavam em meu nome todo esse tempo. E estão, que os sonhos nunca se enganam.

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