::O neurônio da compaixão

História real

Eu tenho uma espécie de defeito congênito no neurônio responsável pela compaixão. De vez em quando, cismo de adotar estranhos completos, é inexplicável. As sinapses começam a se formar sozinhas e, quando vejo, a mente cria toda uma narrativa que corrobora aquele absurdo 100% fantasioso e totalmente descompromissado com qualquer tipo de verdade. O primeiro caso foi quando cismei com o gerente de uma pizzaria no Rio Sul. Voltei pra casa chorando várias vezes de pena dele e, mesmo com o passar dos anos, ainda sinto uma conexão, uma espécie de saudade. Os alvos dessa compaixão desajustada viram membros da família nessa minha cabeça doente.

Ele era magrinho, alto, formal, sempre solícito e responsável, camisa pra dentro, calça passadinha. Daquelas pessoas que passam incólumes numa tempestade, sempre com os vincos feitos. A pizzaria é de estilo fast-food, de passagem, mesinhas fixas, pizza feita na hora, fininha, uma delícia, pão de batata quentinho e um sorvete terceirizado ótimo, dos primeiros do estilo gelato no Rio, uma delícia, uma fortuna antes de ser modinha.

Pois bem, foi compaixão à primeira vista. Em bom português, eu cismei com ele. Sentia muita pena dele, morava muito longe, a mulher dele fazia salgadinho pra fora, a filha deficiente que o recebia com abraços carentes todo dia, que vida sofrida! Os olhinhos dela vibravam. Parte da vibração era de saudade do pai, parte era a TV que tremulava porque não tinham dinheiro pra comprar uma nova e as antenas não davam jeito na imagem. Podia ser também a parede azul que fechava o ambiente e doía a vista, aqueles móveis marrons herdados do sogro, que reformou a casa toda e deu os móveis antigos pra eles. Eram as únicas coisas de segunda mão na vida daquela família, todo o restante era muito digno.

Eu ia sempre ao shopping porque era perto de casa. Mesmo sem fome, comia aquele pão de batata ou uma fatia de pizza. Pra ajudar. Ele, às vezes, ficava triste que não vendia muita pizza. Nesses dias, a recepção da filha naquelas paredes azuis era mais sofrida. Aí eu comprava pra ajudar, queria evitar que ele sofresse mais ainda, estava sempre atenta. Olhava para os clientes em agradecimento silencioso, por estarem ajudando e comprando.

Ele nunca soube de mim, eu nunca soube o nome dele. Às vezes, passava bem devagar pelo corredor “dele” e ficava de longe observando preocupada e solene. Cada dia eu sintonizava uma parte da história. Ele tinha um caderno de poesias e nunca mostrou pra ninguém, mas foi com isso que conquistou o amor da mulher, quando eram adolescentes, no grupo jovem da igreja. Foi uma cerimônia de casamento simples, lua-de-mel em Campos do Jordão. Eles ficaram muito felizes com esse emprego no Rio, abriram uma garrafa de Sidra pra comemorar.

Devia ter limite pra clichê de subconsciente.

Um dia passei por lá e ele não estava. Gelei. A balconista falou que ele não trabalhava mais lá. Gelei mais que o gelato! Perguntei e ela jurou que não tinha sido pelo faturamento da pizzaria (alívio!!), ele tinha arranjado outro emprego. E eu fiquei sem notícias, voltei chorando pra casa, onde ele estava agora? E a filha? A mulher tinha conseguido aquela encomenda urgente pro batizado da filha da vizinha?

Enquanto escrevo, me lembro do rosto dele nitidamente. É incontrolável! Não fui eu que criei essa história, foi meu eu lírico. Que entrou em cena novamente há uns meses.

A nova compaixão à primeira vista é um rapaz do hortifruti, um amor de pessoa, muito bonzinho, ótimo atendimento. Dia desses, estava doente. Gelei. Voltei no dia seguinte “pra comprar azeitona preta” e perguntei por ele. Estava de folga e ninguém sabia se ele tinha melhorado. O coração aperta nessas horas! Esse acho que meu subconsciente ficou exausto e, preguiçoso, criou algo parecido com o Charlie, da Fantástica Fábrica de Chocolate. Ganha pouco e sustenta o pai, a mãe, os avós e as tias por parte de pai que têm problema de coluna, refluxo e hérnia. A tia mais velha é madrinha dele e está com suspeita de lúpus. Ele mora longe, dorme numa beliche e não reclama de nada. É a alegria da casa, um orgulho na família, tem uma prateleira da estante só com as fotos de todas as fases da infância. Começou a trabalhar cedo e ficou muito feliz de conseguir esse emprego no hortifruti. Nesse dia, abriram um suco de caixinha pra comemorar e colocaram uma pedra de gelo em cada copo, tintim. A tia do refluxo ficou reclamando até o dia seguinte desse brinde, mas ele já tinha ido trabalhar, não soube de nada.

Na véspera de Natal, o hortifruti fica bombando de tijukstenses em fúria e eu nunca perco esse fervo. Foi a primeira vez que vi Charlie um pouco estressado. Era depois do almoço e aquela tripinha de senha já quente de tanta atividade, os números altos, ele tinha que voltar pra casa com as compras que a mãe pediu. Pedi azeitona assim: “queria um pote pequeno de azeitona, por favor”. Foi quando ele respirou bem fundo e elevou o tom de voz, coisa perceptível apenas para stalkers de estranhos avulsos:

— A senhora vai querer verde, preta, azapa, em conserva, com caroço, fatiada? Qual azeitona afinal?

Pedi desculpas, fui mais específica e ele sorriu apressado, nem ouviu meu “obrigada, feliz natal”. Ninguém ouviu, estava um caos aquele lugar.

Hoje estive lá, vi que ele já estava melhor. Quando foi a minha vez, perguntei se ele tinha melhorado e sim, ele já está ótimo. Enquanto providenciava meus pedidos, me contou detalhes do que tinha acontecido e inclusive falou que vai voltar ao médico depois da faculdade. Ele faz faculdade! Oun. Fiquei feliz. Devem ter contratado alguém pra dar conta dos idosos daquela casa porque agora ele chega mais tarde.

Não sei por que faço isso, não é de propósito, só sei do amor genuíno que fica boiando em volta dessas informações inventadas de uma mente fértil, cafona e com sérios comprometimentos. É uma compaixão gratuita que transforma estranhos em objetos da minha mais profunda preocupação. Talvez algo esteja faltando ou sobrando pra eu me sensibilizar dessa forma, zelar por eles e me envolver, sofrer, chorar, comprar pra ajudar e vibrar quando eles ficam bem.

Esse post está água demais, então fiquem com o som do Earth, Wind and Fire, Boogie Wonderland, pra equilibrar as energias e moldar o caráter com o melhor som da d-i-s-c-o.

Deixe seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *