::O neurônio da compaixão

História real

Eu tenho uma espécie de defeito congênito no neurônio responsável pela compaixão. De vez em quando, cismo de adotar estranhos completos, é inexplicável. As sinapses começam a se formar sozinhas e, quando vejo, a mente cria toda uma narrativa que corrobora aquele absurdo 100% fantasioso e totalmente descompromissado com qualquer tipo de verdade. O primeiro caso foi quando cismei com o gerente de uma pizzaria no Rio Sul. Voltei pra casa chorando várias vezes de pena dele e, mesmo com o passar dos anos, ainda sinto uma conexão, uma espécie de saudade. Os alvos dessa compaixão desajustada viram membros da família nessa minha cabeça doente.

Ele era magrinho, alto, formal, sempre solícito e responsável, camisa pra dentro, calça passadinha. Daquelas pessoas que passam incólumes numa tempestade, sempre com os vincos feitos. A pizzaria é de estilo fast-food, de passagem, mesinhas fixas, pizza feita na hora, fininha, uma delícia, pão de batata quentinho e um sorvete terceirizado ótimo, dos primeiros do estilo gelato no Rio, uma delícia, uma fortuna antes de ser modinha.

Pois bem, foi compaixão à primeira vista. Em bom português, eu cismei com ele. Sentia muita pena dele, morava muito longe, a mulher dele fazia salgadinho pra fora, a filha deficiente que o recebia com abraços carentes todo dia, que vida sofrida! Os olhinhos dela vibravam. Parte da vibração era de saudade do pai, parte era a TV que tremulava porque não tinham dinheiro pra comprar uma nova e as antenas não davam jeito na imagem. Podia ser também a parede azul que fechava o ambiente e doía a vista, aqueles móveis marrons herdados do sogro, que reformou a casa toda e deu os móveis antigos pra eles. Eram as únicas coisas de segunda mão na vida daquela família, todo o restante era muito digno.

Eu ia sempre ao shopping porque era perto de casa. Mesmo sem fome, comia aquele pão de batata ou uma fatia de pizza. Pra ajudar. Ele, às vezes, ficava triste que não vendia muita pizza. Nesses dias, a recepção da filha naquelas paredes azuis era mais sofrida. Aí eu comprava pra ajudar, queria evitar que ele sofresse mais ainda, estava sempre atenta. Olhava para os clientes em agradecimento silencioso, por estarem ajudando e comprando.

Ele nunca soube de mim, eu nunca soube o nome dele. Às vezes, passava bem devagar pelo corredor “dele” e ficava de longe observando preocupada e solene. Cada dia eu sintonizava uma parte da história. Ele tinha um caderno de poesias e nunca mostrou pra ninguém, mas foi com isso que conquistou o amor da mulher, quando eram adolescentes, no grupo jovem da igreja. Foi uma cerimônia de casamento simples, lua-de-mel em Campos do Jordão. Eles ficaram muito felizes com esse emprego no Rio, abriram uma garrafa de Sidra pra comemorar.

Devia ter limite pra clichê de subconsciente.

Um dia passei por lá e ele não estava. Gelei. A balconista falou que ele não trabalhava mais lá. Gelei mais que o gelato! Perguntei e ela jurou que não tinha sido pelo faturamento da pizzaria (alívio!!), ele tinha arranjado outro emprego. E eu fiquei sem notícias, voltei chorando pra casa, onde ele estava agora? E a filha? A mulher tinha conseguido aquela encomenda urgente pro batizado da filha da vizinha?

Enquanto escrevo, me lembro do rosto dele nitidamente. É incontrolável! Não fui eu que criei essa história, foi meu eu lírico. Que entrou em cena novamente há uns meses.

A nova compaixão à primeira vista é um rapaz do hortifruti, um amor de pessoa, muito bonzinho, ótimo atendimento. Dia desses, estava doente. Gelei. Voltei no dia seguinte “pra comprar azeitona preta” e perguntei por ele. Estava de folga e ninguém sabia se ele tinha melhorado. O coração aperta nessas horas! Esse acho que meu subconsciente ficou exausto e, preguiçoso, criou algo parecido com o Charlie, da Fantástica Fábrica de Chocolate. Ganha pouco e sustenta o pai, a mãe, os avós e as tias por parte de pai que têm problema de coluna, refluxo e hérnia. A tia mais velha é madrinha dele e está com suspeita de lúpus. Ele mora longe, dorme numa beliche e não reclama de nada. É a alegria da casa, um orgulho na família, tem uma prateleira da estante só com as fotos de todas as fases da infância. Começou a trabalhar cedo e ficou muito feliz de conseguir esse emprego no hortifruti. Nesse dia, abriram um suco de caixinha pra comemorar e colocaram uma pedra de gelo em cada copo, tintim. A tia do refluxo ficou reclamando até o dia seguinte desse brinde, mas ele já tinha ido trabalhar, não soube de nada.

Na véspera de Natal, o hortifruti fica bombando de tijukstenses em fúria e eu nunca perco esse fervo. Foi a primeira vez que vi Charlie um pouco estressado. Era depois do almoço e aquela tripinha de senha já quente de tanta atividade, os números altos, ele tinha que voltar pra casa com as compras que a mãe pediu. Pedi azeitona assim: “queria um pote pequeno de azeitona, por favor”. Foi quando ele respirou bem fundo e elevou o tom de voz, coisa perceptível apenas para stalkers de estranhos avulsos:

— A senhora vai querer verde, preta, azapa, em conserva, com caroço, fatiada? Qual azeitona afinal?

Pedi desculpas, fui mais específica e ele sorriu apressado, nem ouviu meu “obrigada, feliz natal”. Ninguém ouviu, estava um caos aquele lugar.

Hoje estive lá, vi que ele já estava melhor. Quando foi a minha vez, perguntei se ele tinha melhorado e sim, ele já está ótimo. Enquanto providenciava meus pedidos, me contou detalhes do que tinha acontecido e inclusive falou que vai voltar ao médico depois da faculdade. Ele faz faculdade! Oun. Fiquei feliz. Devem ter contratado alguém pra dar conta dos idosos daquela casa porque agora ele chega mais tarde.

Não sei por que faço isso, não é de propósito, só sei do amor genuíno que fica boiando em volta dessas informações inventadas de uma mente fértil, cafona e com sérios comprometimentos. É uma compaixão gratuita que transforma estranhos em objetos da minha mais profunda preocupação. Talvez algo esteja faltando ou sobrando pra eu me sensibilizar dessa forma, zelar por eles e me envolver, sofrer, chorar, comprar pra ajudar e vibrar quando eles ficam bem.

Esse post está água demais, então fiquem com o som do Earth, Wind and Fire, Boogie Wonderland, pra equilibrar as energias e moldar o caráter com o melhor som da d-i-s-c-o.

::Controle

Eu amo meu rim

Um dos pesadelos da minha vida é ter que doar um rim. Sabe como é: a pessoa morrendo, a compatibilidade, aquele papo de amor incondicional e pronto, você tem que doar uma parte do seu corpo, porque senão fica chato. Parte do problema é que sou muito apegada às minhas coisas, aos meus órgãos principalmente. Parte é porque teria que ser alguém que eu amasse bastante e que jamais poderia despertar arrependimento. Amo bastante, acho ótimo, mas rim sempre foi um negócio demais pra minha cabeça. A pessoa ia sempre ficar com aquele sorriso idiota, rir forçado das minhas piadas, afinal eu doei um rim e mal sabe ela que foi a contragosto. Imagina um desentendimento com alguém que recebeu meu rim! É o tipo de coisa que não dá pra jogar na cara porque fica mais chato ainda do que recusar. E tem como evitar você se desentender com alguém pro resto da vida, pro amor incondicional funcionar sem nenhum amassadinho? Tem. É só mudar de continente e cortar relações. Lá se foi a pessoa e meu rim junto, mas o amor está mantido pra sempre, que coisa linda que é o amor. Melhor não arriscar.

A outra parte do problema, além da separação de um órgão que muito convenientemente vem dobrado pra jogar o vivente numa saia justa até o fim da vida, é que eu não sei realizar um transplante de rim. Você pode me explicar mil vezes, posso fazer um curso de transplante, um de rim, posso passar na prova, mas não saberia fazer. Não é a minha profissão e não investiria tempo pra aprender a fazer isso. Pra arriscar um órgão vital, é bom dar tudo certo na transferência. E eu não sei fazer isso. O tanto que investiria emocionalmente no desapego do rim e no apego ao receptor, pra depois não dar certo por erro ou incompatibilidade do pós-cirúrgico. Meu rim no lixo, ninguém tá nem aí, bota o doente na fila do transplante de novo. Já pensou? Se eu não puder garantir que meu rim iria funcionar super bem no outro corpo, não ficaria à vontade pra isso. Eu gosto muito do que eu consigo fazer e dificilmente confio que os outros vão realizar tarefas de grande porte que me afetem. Um ravioli você confia que alguém prepare pra você. Se não estiver bom, pede outro prato, come pãozinho do couvert pra não morrer de fome ou vai pra casa e faz um miojo, merda de restaurante, qual a dificuldade de preparar um ravioli? Algumas decisões que afetam a minha vida realmente prefiro eu mesma estar no comando, tenho complexo de Ursulão. Até que chegou o momento em que percebi como isso é impraticável, tive que dar um salto, confiar, me entregar e ter fé.

Controle, fé, rim, relações. Não tenho fé. Tenho uma lua minguante de fé, um Chile de fé. Já viu como a lua minguante é fininha? Viu o mapa do Chile, que magrinho? Pois é, essa é a minha fé. Não é fé em Deus ou algo acima de nós. É fé que as coisas vão melhorar, que vai dar tudo certo no final, que a justiça será feita. É essa fé que não tenho.

Essa noite sonhei que meu pai era o Vladimir Putin. Adorei, foi uma surpresa ótima por vê-lo e porque achei chique ser a filha do dono. Primeira coisa que pedi foi pra ver os mísseis, as ogivas, a sala de controle. Freud, onde estiver, até tem vontade de rir, mas só observa. No sonho, meu pai/Putin falou que seria melhor eu não ir lá agora, pra não chamar a atenção. “Filha, é um lugar muito vigiado, deixa passar uma semana, um mês, dois, aí te levo lá. Enquanto isso, o sorvete daqui é ótimo, vamos lá que eu peço pra eles prepararem um potão pra você.” E ele estava tão lindo, tão feliz, animado com o sorvete do Kremlim, sendo sábio e escolhendo o melhor momento pra eu conhecer os procedimentos de como se manda tudo pro espaço. Ou não.

Lições de confiança, poder interno, saudade, lições do tempo cronos, aquele da hora certa de todas as coisas, que a gente, quando tem o poder na mão talvez decida na hora errada, faz e pronto. Eu tenho pressa de viver e penso extremamente rápido, não sei esperar, a minha hora é sempre agora. E agora não é mais, já nem sei. Ainda bem que tenho esses sorvetes metafóricos porque as transformações estão pesadas e brutais. Tô mudando tanto que daqui a pouco fico igual de novo por pura confusão mental. Preciso me cuidar, me alimentar, deixar filtrar e me preparar pra dar conta das usinas criativas e de fissão nuclear que nem sabia que estavam em meu nome todo esse tempo. E estão, que os sonhos nunca se enganam.

::O doido e eu

Um dia seremos livres

Há uns dois meses, apareceu um doido na minha rua. Um doido que berra. As crises estão cada vez mais frequentes, os berros mais fortes. O túnel de som traz a dor do doido pra muito perto de mim, é impossível ignorar. Aí hoje eu desci pra ver se via o doido. Levei apenas o cartão do banco, se precisasse sair correndo pra comprar uma água pra ele. Berrando desse jeito, devia estar com sede.

A orientação espacial me levou para o prédio certo, olhei pro alto e nada, não ouvia mais, até que ouvi. O porteiro me contou que também ouvia, contou parte do que sabia da história do doido. Era um morador, não mora sozinho, não é um doido itinerante que aparecia de vez em quando pela rua como eu achava. É um doido impublicável, que aparentemente não está recebendo atendimento, está negligenciado pelos seus e por todos em volta. Senão, não estaria tão mal. E, se é impublicável, me interessa.

É claramente alguém em surto, um doente mental em sofrimento e sem tratamento. A compaixão instantânea dói também e disfarça uma inveja muito grande da liberdade dos doidos. Eles querem gritar e gritam, querem quebrar tudo e quebram, querem xingar e xingam. Ninguém dá nada pro doido fazer porque ele está sem condições de funcionar. Em teoria, ninguém trata mal o doido. Porque, se fizer isso, ele poderá revidar, jogar coisas em cima. A bem da verdade, ele revidará com ou sem motivo. Ele não sabe por que tá jogando, mas você sabe por que está sendo atingido no meio da testa. É uma violência catártica, desobrigada, vai reclamar com o bispo. Nós, os não medicados e doidos controlados, temos a única opção de gritar dentro do travesseiro pra não assustar a vizinhança, deitar chorando em desespero e torcer pra apagar rápido, tomando cuidado pra colocar uma alturinha senão acorda com bolsas de viagem debaixo dos olhos, o rosto o dobro de tamanho, as secreções entupindo as cavidades, a boca seca e a certeza de que nada passou, foi só uma interrupção temporária ao sofrimento. Eles, os doidos de carteirinha, não têm tarefas, são doidos. Nós, os doidos disfarçados, sofremos também pela lucidez, como uma maldição, e temos tanta responsabilidade: trabalhar, hidratar, pagar contas, sair para almoçar, encontrar os outros na rua, rir sem vontade, kkk.

Eu não sei por que desci hoje, não sei se poderia ajudar. Queria mesmo era abraçar o doido, gritar junto com ele, ser por alguns momentos a segunda voz do doido que grita, gritar por ele um pouco. Queria jogar pra fora aos berros a insatisfação do que não consigo mudar, do que não consigo deixar pra lá, exausta das mudanças que tenho que empreender, os esforços impossíveis pra fazer de conta que está tudo normal quando está tudo o oposto disso: tudo está mais pro avesso do absurdo de uma realidade indigesta demais, que vai descer atravessada rasgando tudo e cicatrizando lentamente, se eu tiver sorte de um dia cicatrizar.

A dor do doido é a minha dor. Não consigo ficar indiferente porque somos tão iguais. Queria um remédio pra minha dor e pra dele. Fica um pouco quieto, doido, vamos ficar quietos juntos, esperar o remédio fazer efeito até a química do cérebro começar a achar tudo fácil de atravessar. Vamos ser livres, doido! Vamos fazer de conta que ninguém está nos machucando por ação ou indiferença, por acusação ou negligência, por distância ou descaso. Vamos fazer de conta, nem que seja por um momento, que aquele silêncio não está martelando tão alto. Um dia, quem sabe, tudo isso vai passar, a vida vai nos dar um presente e vamos gritar de alívio.

::Arqueologia

Will it float?

Há uns dias descobri a origem da minha raiva. [Que rufem os tambores!] Por que, como, quando, quem, tudo. É um novelo que amarra tudo o que me afeta, todas as reações, o jeito como vivo, as palavras que escolho, o que compro e de qual lado da cama durmo. Amarra e paralisa: agora que descobri, tenho que resolver.

A raiva é uma emoção como outra qualquer e não pretendo deixar de senti-la. Quero as emoções todas intactas, inteiras, passadas e perfumadas dentro do armário e em constante prontidão. Não é bom reprimir emoções e sentimentos. O que precisa mudar é a práxis, a maneira de reagir, responder. Quero entrar em casa mais feliz, estar feliz dentro de casa, voltar a ser eu mesma, depois que a coisa degringolou. E degringolou aqui, antes de eu entrar pra escola, olha que gracinha, quanto colágeno e quanta esperança.

Trabalhar nas atitudes é dinâmico, dá mais propriedade, ocupa o corpo e a mente, descansa o pensamento e a angústia paranoica, tira a pessoa do estupor pós-constatação, o autoflagelo estéril, o faroeste dos culpados, essa mania que a gente tem de ser justiceiro de si mesmo. Descobri de dentro pra fora, agora estou agindo de fora pra dentro e pretendo encontrar alguma coisa interessante no meio do caminho, amalgamar algo totalmente novo. Daqui vai sair um novo jeito de agir, pensar, uma nova pessoa. Pode dar errado também, mas aí fica como está: ninguém liga nem eu telefono, mantemos tudo como está.

Não descobri do jeito fácil, não foi um x da questão bonitinho. Foi tragédia de avião, estou em carne viva, fratura exposta, uma mistura de vergonha, medo e disposição porque acho que ainda dá tempo de consertar. Precisaremos de todas as equipes de resgate, a junta médica e o caricaturista. Vai doer.

A primeira medida foi reconhecer o problema. OK. Neste momento, estou em modo teste pra ver se tem solução. Está tudo muito no início ainda e não vou comemorar, porém, já tive ótimos resultados, 100% de aproveitamento. Fui direto confrontar os gatilhos da raiva, que não tô aqui de brincadeira, e eles estão em toda parte, eu não tinha ideia! O atendimento na minha batata preferida miraculosamente melhorou, Anabela de Malhadas adivinhou o peso de primeira, tive mais sorrisos e sorri mais, tudo fluiu, como se tivessem transplantado as pessoas de um lugar onde elas se importam. O Profeta Gentileza estaria orgulhoso de mim. O sinal agora fecha e abre num ritmo razoável, emagreci, resolvi por telefone coisas que antes seriam impossíveis e já até me ligaram empenhados em me devolver um dinheiro que cobraram a mais na pizzaria.

“Dona Daniela, se a senhora quiser, mando um motoqueiro aí com o dinheiro.”

“Não precisa, vou aí buscar.”

“A senhora tem certeza?”

“Aí ferrou, não tenho certeza de nada.”

Os objetos inanimados também estão diferentes, bem mais animados do que antes. Porque eu mudei. Já não brigo mais com eles. Nem comigo. Nem com ninguém. Também não clico mais por engano na Barra de Tarefas, no FileZilla, que está sempre em status de retardamento, sempre querendo instalar uma atualização de software enervante bem na hora de subir ou baixar um arquivo. Agora o dedo obedece no teclado. Não é nada sobrenatural, nada mágico nem lisérgico, mas bem que está parecendo. Não é possível! Dói, claro, mas gostaria de ter chegado a essas conclusões antes.

A minha raiva é um sentimento ligado à minha luta por sobrevivência, não fiz nada de propósito porque sou intrinsecamente seca e ruim. Agora que estou com dever de casa novo, tenho que fazer tudo sem pressa e com paciência, estou fazendo o deploy usando o banco de dados de produção logo, que a vida funciona sem ensaio. Tudo está exigindo muita vigilância até eu funcionar no modo automático novo sem precisar pensar antes de agir. É uma mudança de grande porte com impacto em tudo.

Evidentemente não vou contar tudo, acabamos de nos conhecer. Você saberá o que quiser na hora certa, especialmente se tiver disposição para ler nas entrelinhas, que é a minha frequência preferida. E se tiver carinho. Respiro por aparelhos e dentro do saco, alternando. Tenha calma comigo daí que terei calma comigo daqui.

::Andar na linha

Om... Ai!

(Ilustração de Kiseleva Mila)

Um dos grandes equívocos de quem faz terapia é achar que os problemas vão desaparecer. Ou meditar achando que o correto é esvaziar a mente. Não esvaziou, então não meditou. Não é assim que funciona. Com a exceção da terapia cognitivo-comportamental que resolve um drama pontualmente e você fica livre. Passou por um trauma forte? Resolve aquilo, dessensibiliza, toma um banho e acabou. Estou falando da terapia em divã, de longo prazo, outra proposta. Eu uso o processo terapêutico e a meditação pra aumentar a resiliência, aquela capacidade de esticar o elástico sem esgarçar a ponto de te deixar com a calça arriada enquanto atravessa a rua. Os problemas nunca vão desaparecer nem melhorar. Às vezes até pioram, porque tomar consciência de si mesmo dói, exige que você se responsabilize e envolve mudanças de atitude que muitas vezes mudam tudo, você tem até que mudar as cortinas de casa.

Terapia é abrir-se a si mesmo em mil pedaços sem anestesia. É todo dia sentar-se em frente a sua estante de problemas, questões, dificuldades, medos, pavores, hábitos, desejos e vontades, pegar cada um dos itens, olhar com carinho, entender e por fim decidir se volto com ele pra estante ou jogo fora. E, ao voltar com o item pra estante, dá pra arrumar diferente, criar nichos semânticos ou deixar como estava. Eu sei que funcionou quando o resultado do processo é um sorriso orgulhoso ou debochado. Ou um choro catártico, que também sou chegada a uma autopirraça de vez em quando. E depois de tantos anos de autoconhecimento e treino, é natural a pessoa ficar confiante. Eu pelo menos fiquei toda pimpona, achando que tudo estava sob controle, que tudo daria pra resolver, principalmente o que não dava para controlar, toda treinada na impermanência. Já tinha até pegado um suco.

Aí caiu uma bigorna na minha cabeça e não sei resolver, fiquei estatelada, incrédula, cambaleante e achando tudo uma tremenda injustiça. Mesmo com tanta terapia e tantos recursos, mesmo com toda a flexibilidade, esse monstro parece difícil demais. Deve fazer parte do processo de crescimento: os problemas ficam mais cabeludos e as lâminas das soluções mais cegas, tudo menos depilável e sujeito a tufos incômodos surgindo nos piores momentos. Parece uma mudança de curso gigantesca, semelhante a uma manobra de navio, um giro na escotilha emperrada. Não pode ser feito, não vou conseguir. E não conseguir não é uma saída fofa, é um prognóstico ruim, solitário, sombrio, triste, coisa pra mudar de cidade, adotar uma outra identidade e torcer pra que viver disfarçada e na mentira resolva.

Talvez o problema não tenha mesmo solução e, em vez de manobrar o navio, o correto seja deixá-lo em alto mar e alugar uns barquinhos pra ir e voltar todo dia pra terra firme. Será? O consenso é não fazer nada, esperar, observar e acolher, aproveitando a marola. O que fazer quando o correto é não fazer nada? Aterrorizada, resolvi meditar e deixar a mente trabalhar no modo aleatório e achar uma combinação imponderável. Alimentei essa mente constantemente, dei o que ela precisava, vire-se. Se conscientemente não tem solução, confiei e fui dormir. Deu certo, a solução veio em sonho por dois dias seguidos.

É bom não ter pressa, porque não é solução pronta, é apenas um caminho que singelamente pode nem ser o correto. Não é uma coisa só a fazer ou não fazer, é uma perspectiva nova pra um problema que chegou a um ponto decisivo. Coisa que não quero ainda nem abordar na terapia, porque é enorme demais, chato demais e bem mais constrangedor do que eu gostaria. O risco, inclusive, é não chegar a lugar nenhum, andar em círculos e ficar tonta. Saber a causa, não saber a saída.

A parte boa de estar meditada, analisada e chafurdada é que dá até pra experimentar e errar conscientemente pra ver no que dá. Fazer o certo um pouco e também escolher fazer o errado, pra tentar uma nova abordagem, desobedecer os instintos, ser um pouco Costanza talvez.

O problema misterioso é a resposta pra pergunta: por que as pessoas me odeiam tanto? Incluindo você.

 

 

::Jujuba de Jesus

Uma metáfora freudiana da interdição do prazer

Já é a terceira pessoa que me diz em poucas horas:

— Saudade de você.

Ao que respondo:

— Eu também.

Não estou mais aqui há tempos. Cadê? Onde estou? Da última vez que me vi, o que estava fazendo, o que vestia? Não é uma questão de estar infeliz, triste. Só não estou aqui. Nem aí. Talvez esteja infeliz e triste. Talvez não. Quando voltar, talvez saberei.

E se não voltar?

Aquela ilusão de que as coisas vão melhorar, que tudo vai dar certo, o seu clichê preferido de que quem espera sempre alcança ou que os fortes serão recompensados no final. Mentira, balela, bullshitagem, clichê rebosteio de quinta. Não, não vai ficar tudo bem. Como você pode ter tanta certeza? Porque os filmes dizem? Claro, os filmes sabem tudo. Mande os filmes me procurarem que eu tenho umas verdades pra falar pra eles. Sem legenda nem dublagem, que não tô pra brincadeira.

Essa herança/maldição cristã infecciona tudo na nossa cultura. Toda a nossa formação é baseada no conceito de céu, aquela premiação futura, convenientemente disponível apenas depois que se morre. Lá na frente, você terá a compensação justa por tudo de ruim que estiver passando. Quanto pior a sua vida, maior será a recompensa. Ambicione ser santo, com uma história bem triste, porque o sacrifício é imenso, proporcional ao júbilo posterior.

Isso está em toda parte. Você come sobremesa? Podem provar por a + b que o açúcar depois da refeição salgada é a melhor maneira de se alimentar. O que de fato nós praticamos e internalizamos é que algo doce, agradável à ponta da língua, nos será entregue como troféu depois que tivermos comido algo salgado, ruim e percebido em lugares estranhos da língua, deixa eu acabar de comer essa gororoba logo que a sobremesa está me encarando. Sobremesas são a terra prometida do bom comportamento. Sem elas ficam crianças mal comportadas ou adultos que comeram errado, ai ai ai. O desmame mal feito generalizado deu nisso, gerações inteiras incapazes de superar o trauma da adaptação para o salgado, preguiçosas e mal acostumadas. O problema da humanidade é o paladar mal treinado. É o sucesso dos saborizadores de leite, os pacotinhos de açúcar em toda mesa de café, o medo do amargo, do azedo.

Deixar o melhor para o final é o martírio esperançoso de retardar a felicidade ao máximo. Lá na frente você será feliz, agora não. O pacote de jujubas está aí pra quem quiser ver. Todas têm mais ou menos o mesmo gosto, mas elas vêm coloridinhas. Distorções na mecânica de consumo à parte, o comedor médio de jujuba segue este raciocínio:

Amarelas – boas, amarelo é o sol que dá a vida. Dizem que são feitas de laranja. Oba, vou comer um solzinho.

Laranja – que gracinha, deve ser de tangerina. Ou será laranja? Dá mais uma pra eu ver. Olha, essa tem uma ponta de outra cor!

Verde – ninguém merece. Verde lembra brócolis, couve, árvore, alface, tudo o que há de mais detestável na face da terra.

Branca – anis, mas o que que é isso, alguém tira isso daqui, que gosto esquisito. Procura aí o que é anis, gente, pra mandar tirar de tudo. Anis é o coentro do doce. Pode não, tinham que proibir.

Tudo isso é integralmente superado porque, em seguida, depois do calvário, no fim do pacote, deita calmamente a preferida. E ela sempre fica para o final, escolhida com um sorriso, a mais audaciosa, atrevida, desejada e festejada.

~ *Vermelha* ~ – prêmio, louvor, honra e glória suprema. Da cor do coração, do sangue que corre nas veias, a cor do amor, da Moranguinho e da maior parte das bandeiras. Vermelho é a sua paixão, seus lábios, sua vontade de sair saltitando quando algo bom acontece. Pode acabar o mundo, sempre teremos a jujuba vermelha no final. Não sequestre a última jujuba do pacote de ninguém: você estará roubando dela a felicidade.

É um conceito viciado, uma mecânica de retardamento do prazer. Desde que me dei conta disso, fiz vários testes de comer a vermelha primeiro. Fica tudo enviezado, não tentem repetir isso, por favor. Como você se atreve a pegar sua medalha antes de correr a meia maratona? Quem você pensa que é para antecipar a felicidade de comer uma jujubinha vermelhinha do amor sem antes passar pelo sufoco das outras? Não pode, está errado. Tem que sofrer primeiro, tem que sofrer muito para merecer a salvação. Aproveitar antes é um crime, uma descompostura, algo a ser evitado e condenado.

Bem-aventurados os que não estão nada bem agora. Alguém — real ou imaginado — nos garante a todos que há vida em abundância. Mas só depois.

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